Super FOG vs. Wii

Introdução: Neste último dia 11 de julho, passou-se um ano do falecimento de Satoru Iwata, mas de alguma forma ainda parece que foi ontem! A indústria dos jogos parou para prestar homenagens e condolências a um dos homens mais fantásticos que esse mercado já viu e uma das figuras mais carismáticas da Nintendo. Eu já fiz uma postagem no dia me despedindo dele e joguei EarthBound para homenageá-lo, agora eu irei falar daquilo que elevou o nome do Iwata às alturas.
O nome “Wii” é uma mutação da palavra We, que significa Nós em inglês, nome dado para que a pronuncia seja agradável independente do idioma e do sotaque. É o nome dado ao console de mesa de maior sucesso da Nintendo desde o NES, um console concebido para revolucionar a forma de se jogar videogame, proposta claramente ilustrada pelo seu codinome Revolution, mas isso ia muito além de mudar o formato do controle, isso também significava abraçar uma nova audiência nunca antes explorada, boa parte do design do Wii girava em torno de uma estratégia de negócios conhecida como Blue Ocean, as consequências de tal estratégia vocês descobrirão nos próximos parágrafos.

O Hardware: Uma coisa que saltava à vista de muitos, o Wii estava longe de ser uma máquina expressiva em termos de gráficos e processamento, nesses termos ele era apenas melhor que o seu antecessor GameCube. Uma das coisas que a Nintendo nos ensinou neste momento é que desde então eles trabalhariam somente com o nível de hardware que eles considerassem necessário para executarem suas idéias, o poderio baixo do Wii possui uma justificativa importante, a de assegurar que o console fosse barato, em razão de o direcionarem às massas, por causa disso a Nintendo teve que confiar na experiência que pretendiam vender, e foi exatamente o que eles fizeram.

O Wiimote: O principal atrativo do console, mostrado ao mundo pela primeira vez na TGS de 2005, que chocou o mundo logo de cara devido ao seu formato que lembra um controle remoto de televisão (o que explica o apelido Wiimote), ele possui um D-Pad em cima, logo abaixo um botão A, atrás dele um botão B em forma de gatilho, três botões (-), Home e (+), um auto falante, dois botões 1 e 2 e uma porta de expansão na parte de baixo, mas o foco desse controle é a captação de movimentos através de seu acelerômetro de 6 eixos e função de ponteiro. A idéia é simplificar ao máximo as ações em certos gêneros de jogos de forma a deixar o gameplay o mais intuitivo possível, o foco em somente dois botões é um forte reminiscente do NES e ajuda a intensificar esse foco na simplicidade tal como a proposta de segurá-lo com apenas uma mão, ou segurá-lo na vertical. A porta de expansão permite anexar diversos periféricos como o Nunchuk, que adiciona uma alavanca analógica e mais dois gatilhos para jogos onde imersão e senso de controle são fundamentais, não à toa o Wiimote combinado com o Nunchuk é considerado o melhor controle para FPS em consoles. Além do Nunchuk também há o Classic Controller, para jogos focados em experiências mais tradicionais, possui o exato mesmo esquema de botões do Super Nintendo adicionado de dois analógicos e dois gatilhos à mais, entretanto, críticas quanto à empunhadura e à posição desses gatilhos extras levaram a Nintendo à criar o Classic Controller Pro, que além de adicionar dois grips ao controle e mudar a posição do fio também favorece o uso dos seus gatilhos melhorados. O último das expansões mais populares foi o infame Wii Motion Plus, mostrado em uma fatídica apresentação na E3 2008, era um acessório simples que adicionava um giroscópio ao Wiimote e melhorava substancialmente a captação de movimentos, o problema é que poucos jogos obrigavam a traquitana e posteriormente ele passou a vir embutido nos Wiimotes fabricados desde 2011 dando ao acessório uma vida muito curta.

Wii Sports: Um disco com cinco jogos de esporte incluídos em todas as caixas americanas e européias do Wii até meados de 2010, consistentes de Tênis, Baseball, Golf, Boxe e Boliche, eram jogos aparentemente simples, feitos para demonstrarem a proposta do Wiimote aos novos jogadores, porém extremamente viciantes e absolutamente bem feitos! Inclusive eu digo com toda a convicção de que não há um jogador que tenha jogado isso mesmo que por alguns minutos e não tenha se divertido, é um jogo espontâneo, daqueles que você aperta Start e começa a jogar imediatamente, quantos jogos assim existem hoje em dia? Eu posso descrever Wii Sports como um jogo de replay infinito! Até o dia de hoje eu posso confiar nesse jogo sempre que eu quero jogar com meus tios e primos em pé de igualdade. Além dos cinco jogos, haviam também vários subjogos baseados nos principais com vários desafios sortidos, como o memorável boliche de 100 pinos.

Retrocompatibilidade: Não é uma função inédita mas é o primeiro console de mesa da Nintendo a oferecê-la, o Wii rodava de forma integral todos os jogos de GameCube sem nenhuma restrição, além de possuir entradas para quatro controles e dois Memory Cards e ainda adicionando o precioso suporte à função Progressive Scan, que fazia os jogos parecerem mais bonitos na TV quando o console era instalado com um cabo vídeo-componente, função fundamental caso você instale se Wii em uma HDTV como eu. Claro que tendo aquelas entradas de controle não poderiam se restringir ao uso em jogos de GameCube, alguns jogos de Wii como Smash Bros. Brawl eram compatíveis com os controles de geração passada da Nintendo que viam o fio como principal vantagem, não à toa a Nintendo, na época do Brawl, lançou um controle especial de GameCube na cor branca e com fio de 3 metros dedicado totalmente aos fãs desse controle.

Funções Online: Adianto desde já, um dos piores aspectos do console, não que fosse inteiramente ruim, mas era sofrível em maioria das coisas que a Nintendo tentou oferecer, culpa disso é a estrutura arcaica que desenvolveram para o console, firmando-se nos inconvenientes Friend Codes para jogos online e a instabilidade do sinal exclusivamente wireless do console, mesmo existindo um adaptador para uso de cabo ethernet, para aqueles que preferem a confiança maior da internet cabeada, experiências online com o Wii eram sofríveis na maioria das vezes. À parte de jogatinas, o Wii também tinha a função Wii Connect 24, que posteriormente se tornou o percursor do Spot Pass nos consoles futuros, a função consiste em manter o Wii conectado na internet mesmo quando desligado, recebendo mensagens e downloads de jogos e aplicações e consumindo o mínimo de energia elétrica possível, o Wii vinha com dois aplicativos pré-instalados para demonstrar essa função, o News Channel e o Forecast Channel, não são aplicativos atraentes e a função deles é totalmente dispensável. Se eu tiver que destacar o melhor do serviço online do Wii, será por conta do…

Virtual Console e WiiWare: Para muitos, a função mais marcante do Wii, a possibilidade de comprar online e jogar títulos clássicos de NES, Super NES e N64 soou comovente quando anunciado da primeira vez, especialmente com as expansões que a biblioteca foi recebendo com o tempo, incluindo jogos de Mega Drive, Turbo Grafx 16, Neo-Geo, MSX e até Commodore 64 (cuja Nintendo comprou os direitos de fabricação nos anos 70 para vendê-lo no Japão, anos antes de sequer pensarem em criar o Famicom). No fim das contas a comoção duraria pouco tempo porque anos mais tarde, distribuição digital se tornaria uma coisa entre os consoles modernos e que deslanchou com as atualizações do PS3 e Xbox 360 em 2009, pensando nisso a Nintendo criou a plataforma WiiWare de jogos digitais, porém as limitações bizarras causadas pelo pífio armazenamento interno do Wii, que eu discutirei no próximo parágrafo, além de exigências corporativas proibitivas fizeram a plataforma ir para o limbo muito rapidamente, foram poucos os jogos que se tornaram populares através dele, com destaque para a série Bit.Trip da Gaijin Games.

Armazenamento: Outro problema grave do Wii era seu armazenamento insignificante de 512 megabytes em memória flash, cuja única utilidade possível era armazenar os saves dos jogos. É válido dar um desconto considerando que essa memória não foi pensada para receber jogos inteiros maiores que os de Virtual Console, cujos maiores pesam 32MB, foi o que forçou a Nintendo à limitar os jogos de WiiWare a microscópicos 40MB, limitando severamente a liberdade de desenvolvimento. Como solução, a Nintendo equipou o Wii com uma entrada para SD Cards de até 2GB no máximo (época em que isso era espaço pra caramba), e posteriormente lançaram uma atualização de sistema que habilita o uso de cartões SDHC, que chegam até os 32GB, e a possibilidade de acessar e executar o conteúdo deles direto do menu principal. Foi uma boa solução mas não o suficiente para o emergente mercado da mídia digital, isso impactou o desenvolvimento de hardwares posteriores como o DSi, que importaria algumas das funções de loja online do Wii.

Shovelware: Eu não chamaria isso exatamente de problema, mas este é o argumento número 1 de qualquer pessoa disposta a desmerecer o Wii. O que acontece é que com a rápida popularização do console e o advento de controles por movimento que ele lançou, muita desenvolvedoras pequenas e até algumas grandes com a EA tentaram pegar carona no sucesso e lançaram jogos de simulação de todos os tipos, que além de fazerem mal uso do Wiimote, deturpavam a idéia do console de oferecer diversão rápida e acessível, além de ofuscar o brilho de jogos bons desenvolvidos por terceiras, como No More Heroes e MadWorld, atirando o Wii em um estigma que ele carregaria até o fim de sua era. Mas o problema que as pessoas que usam esse argumento sequer ponderaram é que shovelware é um mal comum de qualquer console bem sucedido no mercado! O NES também recebeu quantidades anormais de shovelware (e a existência de um personagem da internet como o Angry Video Game Nerd prova isso), o mesmo vale pra Super NES, PlayStation 1 e 2, quando a Microsoft lançou o Kinect ele também recebeu shovelware no seu curto período de popularidade, o PC recebe shovelware à todo momento e ninguém nunca ligou até agora… Assim, shovelware não é um argumento completamente inválido, porque realmente teve um impacto negativo na imagem do Wii, o problema é falar disso como se fosse um problema exclusivo do Wii sendo que isso existe e nos assola há muito tempo.

Por que o console foi um sucesso? O Wii ostenta o o total de 101 milhões de unidades vendidas, superando os 61 milhões de NES vendidos e sendo o console de mesa mais bem sucedido da história da Nintendo. Mas o que foi feito para que tal marca fosse conquistada? O motivo é até simples, não é só uma nova forma de jogar e uma nova audiência, mas sim uma mudança de paradigmas, o Wii ditou novos padrões para a indústria e expandiu a população de jogadores, a Nintendo criou uma experiência de fácil compreensão, que qualquer um pode pegar e jogar em segundos, eles demonstraram a experiência que queriam vender, fizeram as pessoas acreditarem e elas a compraram, porque a experiência vendida pela Nintendo era muito boa, era atraente e oferecia incontáveis possibilidades. Claro que no meio do caminho tivemos problemas e seus erros de design implicaram em lições aprendidas mas ainda assim a Nintendo tinha uma fórmula de sucesso em mãos, o Wii foi fundamental para a Nintendo se reerguer como a líder do mercado durante toda a sétima geração de consoles.

O que veio depois? Em 2o11 a Nintendo resolve mostrar ao mundo o Wii U, a nova geração de consoles de mesa da Nintendo, que eu já analisei anteriormente, então vou poupá-los dos detalhes, mas com isso também veio aquilo que eu considero a maior burrada da Nintendo em muito tempo, que foi o corte abrupto de suporte à atual plataforma, o último jogo que o Wii recebeu naquele ano foi The Legend of Zelda: Skyward Sword, um título bastante aguardado porém que não iria segurar o Wii por 11 meses até o novo console chegar, é certo que nesse meio tempo nós recebemos Xenoblade Chronicles, que foi fruto da maior manifestação por fãs para o lançamento de um jogo na América do Norte (e que até a Gaming do Brasil lançou o jogo aqui no mesmo dia), e depois The Last Story e Pandora’s Tower ambos trazidos pela XSeed Games. Ainda em 2011, um novo modelo de Wii, sem retrocompatibilidade com o GameCube e sem a base vertical foram lançados e, naturalmente com um preço bem menor, em meados de 2012 a Nintendo lançou o Wii Mini, uma versão top loader do Wii com ainda menos funções e a aparência de um brinquedo, que custava meros 99 dólares e vinha com Mario Kart junto, em 2013 são lançados versões Mario e Luigi do Wiimote Plus para uso em jogos de Wii U. Por fim, em 2o14 a Nintendo desliga a Wi-Fi Connection, decretando o fim das funções online dos jogos de Wii e DS, mantendo apenas a Wii Shop Channel funcional, já que o desligamento foi causado pela falência da GameSpy, empresa contratada pela Nintendo para manter o serviço de pé, o Shop Channel já era mantido por um servidor próprio da Nintendo e pode ser acessado do Wii Mode dentro do Wii U. Assim termina o ciclo de vida deste memorável console.

Considerações finais: O Wii mostrou ao mundo que a Nintendo tem poder para revolucionar a indústria se estiverem dispostos à isso, que a Nintendo não deve ser subestimada em hipótese alguma mesmo diante de problemas tão graves. E mesmo tendo uma ascensão e queda tão súbitas, o Wii foi um console fenomenal! À nível pessoal, é o meu video game favorito de todos os tempos, lá eu tenho os jogos que eu gosto, é um console que as pessoas conhecem, me dá acesso à todos os consoles antigos que me marcaram como o Mega Drive, SNES e N64 além de eu poder jogar meus jogos de GameCube nele e eu absolutamente amar o Wiimote. Era um bom pedaço de hardware, e muita coisa sobre ele e minha experiência me fazem crer que todo o potencial dele nunca chegou a ser explorado ao máximo.
Esta é a 100ª postagem deste blog (eu não conto a anterior), eu acho tão apropriado que esta postagem seja sobre o console que eu mais joguei na minha vida em horas contadas, mais apropriado ainda que essa postagem também homenageie um homem que foi a cara da Nintendo nos últimos 13 anos, que gostava muito do seu trabalho e se empenhava em fazer as pessoas sorrirem. Espero que, enquanto eu tiver jogos para analisar e assuntos para discutir, eu também consiga fazer as pessoas sorrirem com as minhas postagens. Obrigado a todos por lerem, espero que apreciem os próximos textos 🙂

score85

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